A arte de deixar tudo pra depois

Claro que fazer algo, mesmo que tarde, é melhor do que não fazer. Mas o fenômeno da procrastinação é arrebatador, pode nos engolir quando estamos distraídos e cobrar caro no futuro…

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A palavra estranha, mas o fenômeno é familiar. Procrastinar é uma arte e requer persistência para ser executada. Por exemplo, é passar os quatro primeiros meses do ano se lembrando do IR, mas terminar a declaração faltando 5 min para encerrar o prazo de entrega. É passar o dia deitado, assistindo TV e observando que o caos instalado na sala, mas começar a organizar a bagunça apenas quando ouve sua esposa colocando a chave na fechadura. Enfim, procrastinar é deixar para amanhã aquilo que não precisa ser feito hoje. E que atire a primeira pedra quem estiver completamente livre desse mal.

Por um lado, a procrastinação é um fenômeno banal, praticado diariamente por quase todos nós. Por outro, ela encerra um paradoxo: tempo e interesse são inversamente proporcionais. Quando tenho tempo, não tenho vontade; e, quando finalmente tenho vontade, o tempo não é mais suficiente.

Isso não é um problema sério quando se trata de atividades que podem ser feitas rapidamente, como terminar a declaração do IR ou arrumar a sala. Quando se trata de questões complexas, no entanto, o prejuízo pode ser irreversível, como acontece frequentemente com quem posterga o planejamento da aposentadoria. Por exemplo, o casamento é um importante preditor de bem-estar nessa fase da vida. Mas o processo de encontrar a pessoa certa e, principalmente, de construir um relacionamento saudável e seguro, pode levar décadas. Nesse caminho, são inúmeras as ameaças à continuidade da relação (atualmente, ocorrem 3 divórcios para cada 10 casais que se unem). Seria ingênuo imaginar que posso ignorar minha esposa por 30 anos e, na iminência da aposentadoria, comprar uma dúzia de rosas e reverter o quadro. Assim como seria ingênuo ter gastos descontrolados por toda a vida profissional e esperar reaver o prejuízo no intervalo de 2 ou 3 anos de economia. O mesmo argumento se aplica aos diferentes fatores associados à boa adaptação à aposentadoria.

Um estudo publicado na revista científica Activities, Adaptation & Aging resume como o processo acontece. Funcionários de uma universidade canadense foram consultados sobre suas preocupações e disponibilidade em participar de programas de preparação para a aposentadoria. Então, os pesquisadores separaram os grupos de acordo com suas respostas. O resultado mais interessante é uma versão do paradoxo do procrastinador: os funcionários jovens, que ainda tinham décadas para cuidar da saúde, dos relacionamentos e das finanças, tinham pouco interesse em saber o que era importante para a aposentadoria; os funcionários com idade para se aposentar (entre 56 e 65 anos), no entanto, estavam muito mais interessados em planejar o futuro posterior à vida profissional. Ou seja: tempo e interesse, mais uma vez, são inversamente proporcionais.

O mais impressionante é que, mesmo sabendo disso, ainda assim nos mantemos inertes. Pasme, mas essa pesquisa foi publicada há 23 anos, em 1991. E ainda hoje continuamos nos preocupando com a aposentadoria muito tarde. Claro que fazer algo, mesmo que tarde, é melhor do que não fazer. Mas o fenômeno da procrastinação é arrebatador, pode nos engolir quando estamos distraídos e cobrar caro no futuro. Por isso, se você também é um bom procrastinador, lembre-se: o melhor momento para agir é agora.