O sentido das coisas

Se você também fica pasm@ quando o mundo entra em desordem, não está só: Encontrar sentido nas coisas não é um passatempo, é uma necessidade.

Little Herr Albert

Sabe quando uma coisa não faz sentido? Por exemplo, quando sua namorada te troca por um cara mais feio ou quando você se machuca no primeiro dia das férias? Pois é, aceitar algo que não tem sentido é bem difícil.

Se eu fosse psicanalista diria que a culpa é da sua mãe (principalmente) e do seu pai. No entanto, evidências indicam que essa conta está no nome de um casal mais antigo: Adão e Eva. O Livro de Gênesis registra que eles provaram o fruto proibido e logo começaram a ver o mundo de uma forma mais complexa. O que ganhamos em conhecimento, perdemos em sossego.

Mais do que a inocência, perdemos também a liberdade. Depois da maçã, não somos apenas capazes de compreender: nós precisamos compreender. Tornamo-nos reféns da nossa própria razão. Pessoas aguardando em uma fila ficam mais tranquilas quando são informadas sobre o tempo de espera. Alunos são mais indulgentes com um professor que chega atrasado, mas justifica sua demora.

De modo geral, faz bem entender o que está acontecendo, e isso se aplica até mesmo em situações irrelevantes. Foi o que descobriu um estudo de 2012, publicado na revista The Psychological Record, no qual pesquisadores fizeram testes para descobrir quão profunda é nossa necessidade de compreender. Foram feitos experimentos com jogos simples: os participantes assistiam alguns, deduziam a regra e respondiam às diferentes situações. Independente da resposta, ganhavam a mesma recompensa. A pegadinha é que os participantes não sabiam que simplesmente não havia lógica em algumas situações e que esses jogos não tinham solução.

E qual foi o resultado? Quando podia escolher, a maioria das pessoas preferia situações com sentido ou neutras. O resultado é interessante, mas previsível. Surpreendente mesmo foi descobrir que as pessoas pareciam agir assim porque não toleravam situações sem sentido. Não se trata apenas de atração pelo sentido, mas de aversão à falta dele. O que a esfinge grega já avisava — decifra-me ou devoro-te — parece que mora dentro de nós.

Imagino que Adão e Eva não tinham noção de quanto nos custaria seu pecado original. Parece que estamos mesmo determinados a dar sentido às coisas… Mas o que aprisiona uns, liberta outros: se você entende as regras do jogo, pode usá-las a seu favor. Já disseram que a tarefa existencial do ser humano não é encontrar o sentido da vida, mas dar um sentido à vida e viver de acordo com ele. Assim, com as regras à mesa, vamos ao jogo!

* Publicado originalmente aqui.