Solidão, uma companhia letal

Antes só do que mal acompanhado, mas tudo tem limite: Solidão mata

Woman sitting on a bench

Woman sitting on a bench

Gosto de morar só, prefiro trabalhar só, adoro ir ao cinema só, quero viver só, etc.

Não é bonito falar essas coisas em público, mas também é injusto julgar quem pensa assim. Por exemplo, um francês muito inteligente chamado Sartre disse, há uns 50 anos, que “o inferno são outros”. Bem antes dele, um jovem revolucionário chamado Jesus Cristo decidiu passar mais de um mês no deserto, sozinho, sofrendo a tentação do diabo. Se esse pessoal escolheu a solidão, imagine nós, que não somos tão espertos e nem tão cristãos…

A filosofia do “eu me basto” é tentadora. Principalmente se você esteve desamparado quando mais precisou de ajuda, ou se as pessoas te trazem mais problemas do que soluções. Por menos que se queira, a vida bate tanto que terminamos cedendo: se a interação social é tão difícil, é melhor ficar sozinho. Depois de algum tempo, a gente vai ficando cheio de manias e a reclusão voluntária vira necessidade. Daí é um passo para sentir que a solidão é a única companhia verdadeira, o que pode se transformar em um caso de amor. Quem sabe sejamos felizes para sempre?

Mentira. Muita atenção aqui: se você ama a solidão, cuidado, esse amor não é recíproco. Como eu sei disso? Pesquisadores de uma universidade americana, Brigham Young University, acabaram de demonstrar isso. Eles reuniram 70 estudos sobre a relação entre solidão e expectativa de vida. Então, analisaram todos os resultados – pasme, foram quase 3,5 milhões de participantes! – para descobrir se, no fim das contas, o isolamento social realmente faz mal.

Todos os estudos acompanharam os participantes ao longo de anos. Ou seja, no início do estudo, as pessoas falavam sobre atividades sociais, morar sozinhas e sentir solidão. Então, de anos em anos, os pesquisadores checam se ainda estão vivas. Assim, puderam comparar a expectativa de vida de quem é solitário e de quem não é.

E o resultado foi claro: solidão mata. Em média, pessoas que vivem reclusas ou se sentem isoladas tem 30% mais chances de morrer. Isso não quer dizer que você precisa estar sempre na multidão ou conviver 24h por dia com sua família (dizem as más línguas que isso aumenta o risco de ficar maluco…). Esse número é apenas mais um sinal de que somos seres sociais e precisamos de gente, inclusive para viver mais. Há algum tempo, já disseram que o inferno são os outros. No entanto, essa pesquisa mostra de forma contundente que, independente dos desafios da interação social, ela pode nos manter vivos e saudáveis por mais tempo.

* Publicado originalmente aqui.